Rommel
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No começo de 1942, na Câmara dos Comuns, Winston Churchill prestou a Rommel um tributo só muito raramente concedido a um inimigo em tempo de guerra: "Temos pela frente um adversário muito audaz e hábil, e, permitam-me dizer, de lado a devastação da guerra, um grande general". Esse tributo poderia, com idêntica justiça, ser prestado ao próprio Afrikakorps, usando o termo "grandes soldados"; que seja isto levado à luz da História.

O nome de Rommel tornou-se mais famoso que o de qualquer dos principais protagonistas na Segunda Guerra Mundial e, pela sua fama, o Afrikakorps alemão, que ele comandou nas campanhas da África do Norte, tornou-se igualmente celebrado. Ambos estão indelevelmente gravados nas páginas da História, devido a sua espantosa carreira no deserto. De sua chegada a Tripoli, em fevereiro de 1941, a sua derrota final, na Tunísia, quase dois anos e meio depois, em maio de 1943.


Quando os primeiros elementos do Afrikakorps chegaram à África, em meados de fevereiro de 1941, o que restava do grande exército italiano do Marechal Graziani na Cirenaica acabava de ser isolado e capturado, em Beda Fomm, pela força mecanizada britânica, sob o comando do General 0'Connor. As forças italianas restantes, na Tripolitânia, tão abaladas se encontravam com as notícias desastrosas, que não tinham como defender o último ponto de apoio da Itália naquela região, O primeiro navio-transporte alemão chegou à baia de Tripoli no dia 14 de fevereiro, dois dias depois da chegada do próprio Rommel. Trazia apenas duas unidades avançadas, e Rommel apressou a ida destas para a frente, que no momento era defendida por um único regimento de italianos, de modo a criar o máximo de atividade possível para ocultar sua debilidade e impedir que os britânicos conseguissem expulsar os italianos da África. Somente perto de meados de março é que o regimento Panzer da sua principal divisão desembarcou em Tripoli. Até fins de março, o restante dessa divisão - a 5" Ligeira, mais tarde rebatizada 21ª Divisão Panzer - não havia ainda chegado. A segunda das suas duas divisões, a 15ª Panzer. só chegaria em maio.Não obstante, desfechou ele uma contra-ofensiva de sondagem, no final de março, com sua única divisão (ainda incompleta) do Afrikakorps - sentindo que os britânicos, depois de prolongada ofensiva pela Cirenaica, estavam exaustos e em processo de reorganização. Injetando ânimo e coragem, com essa manobra, em seus aliados italianos, conseguiu que estes o apoiassem com partes das três novas divisões que lhe foram enviadas da Itália. O avanço de experiência mostrou-se mais bem sucedido do que ele esperava, e Rommel o explorou sem demora, e com tal efeito demolidor, que, passados quinze dias, havia reconquistado aos britânicos todos os ganhos recentemente realizados na Cirenaica, exceto o porto de Tobruk, onde cercou a maior parte do que restava das tropas britânicas.

 



Embora seus esforços para capturar Tobruk fracassassem, a balança da guerra na África começou drasticamente a pender para os germânicos. Em maio, e novamente em junho, os britânicos desfecharam renovadas ofensivas, com novas forças enviadas à África do Norte, mas Rommel e o Afrikakorps conseguiram repelir todas elas, ao mesmo tempo que mantinham o cerco de Tobruk. Em novembro, depois que Auchinleck substituiu Wavell como Comandan-em-Chefe no Oriente Médio, os britânicos desfecharam ofensiva muito mais forte, a qual Winston Churchill esperava que derrotasse o Afrikakorps e expulsasse alemães e italianos da África. As forças britânicas, agora com o nome de 8° Exército, superavam os alemães e italianos, juntos, em número de tanques, na proporção de 9 para 4, e os alemães isoladamente - que eram "a espinha dorsal do exército inimigo", como salientava Auchinleck - em mais de 4 para l. (Na realidade, o total de tanques dotados de canhões dos britânicos era de 756, com cerca de um terço mais em reserva, ao passo que o total de tanques alemães dotados de canhões era 174 e dos italianos, 146 do tipo antiquado). Mas nessa "Operação Cruzado" (Crusader) apenas a diferença do volume das forças em choque, depois de prolongada e arriscada luta, é que levou Rommel e suas forças a se retirarem da Cirenaica para a fronteira da Tripolitânia de onde haviam avançado na primavera.

Com a chegada de novo comboio, que elevou seu esgotado efetivo em tanques de 50 para 100, o Afrikakorps revidou, destruiu uma recém chegada divisão blindada britânica e recuperou a Unha de Gaiola, na Cirenaica Oriental, em princípios de fevereiro. Então, em maio, Rommel frustrou nova ofensiva britânica, atacando na Linha de gozo q. Desta feita, tinha 280 tanques alemães dotados de canhões, com 230 tanques italianos obsoletos, contra quase 1.000 tanques britânicos. Além disso, os britânicos tinham agora 167 tanques Grand, americanos, com um impacto de fogo mais pesado do que qualquer outro, exceto 19 dos seus próprios tanques. Mas depois de uma quinzena de combate, a superioridade técnica do Afrikakorps era tão marcante, que o equilíbrio mudara de mãos. Tobruk fora tomada de assalto e o que restava do 8° Exército foi repelido numa retirada tumultuada para a Linha de El Alamein, seu último refúgio antes do Delta do Nilo. Somente ali Rommel e seus homens, esfalfados, foram finalmente detidos.

Durante esses dramáticos quinze meses, o Afrika Korps fora formado apenas das suas duas pequenas divisões originais (de 2 batalhões de tanques e 3 de infantaria cada uma), mais uma divisão ligeira que Rommel formara de algumas unidades de infantaria e artilharia. Somente depois que ele parou em El Alamein é que Hitler enviou reforços para Rommel, na forma da 164ª Divisão Ligeira e da Brigada Pára-quedista Ramcke. Ele também tinha 6 divisões italianas fracas, mas, destas, apenas uma era mecanizada e uma motorizada (embora duas mais chegassem como reforço a El Alamein, ainda que mal equipadas).

Somente quando Montgomery assumiu o comando do 8° Exército, em agosto, e quando sua superioridade em efetivos sobre os alemães foi aumentada de 6 para 1 em tanques e em aviões é que a balança finalmente pendeu contra Rommel e o Afrikakorps foi, por fim, desgastado.

Realmente os Aliados estavam decididos a conquistar a África do Norte. Em 8 de novembro de 1942, uma força anglo-americana desembarcou na África do Norte, era a Operação Tocha. Diante disto, Hitler e Mussolini decidiram aumentar as suas forças na África e imediatamente reforçaram Tunis e criaram o 5º Exército Panzer, sob o comando do Coronel General von Arnim, que não tinha a simpatia de Rommel. Chegado a Túnis em meados de dezembro, Arnim só encontra no local três divisões: a Divisão Broigh, esfacelada, a 10ª Panzer e a divisão italiana Superga. Duas outras chegam em janeiro: a 334a DI alemã e a divisão italiana Imperiali; depois, em março, vem a divisão Hermann Goering. As unidades estavam desfalcadíssimas, os batalhões alemães não iam além de 400 homens, as divisões italianas contavam com seis batalhões apenas e, incluindo os não-combatentes, o efetivo do 5o Exército não ultrapassava 76.000 alemães e 27.000 italianos.

Mas o reforço veio tarde demais e diante da forte pressão de Montgomery o Afrikakorps foi forçado a realizar uma retirada de 3.600 km, até Túnis, sem ser jamais isolado pêlos perseguidores, agora em grande superioridade. Pressionados pelo Leste e Oeste o AK só caiu numa armadilha quando ficou com o mar, dominado pelos aliados, às suas costas.
A 16 de fevereiro, abandonando o último farrapo do novo Império Romano, as retaguardas alemães e italianas, a Leste (AK) e Oeste (5º Panzer) se retiram, e formam atrás da linha de Mareth. Rommel traz de volta 129 tanques, cuja metade é rebocada. Reconduz, reduzidas de dois terços, as imortais divisões do Afrikakorps, a 15ª Panzer, a 21ª Panzer e a 90ª Ligeira, assim como a 164ª, que se reunira ao exército na véspera de El-Alamein, e cinco pequenas divisões italianas procedentes da guarnição de Trípoli.

30.000 alemães e 48.000 italianos vem reforçar a cabeça-de-ponte do Eixo na Tunísia.
Mas essas tropas tem no seu encalço a Leste o 8° Exército britânico de Montgomery, com sua extraordinária mescla de ingleses, escoceses, australianos, neozelandeses, sul-africanos, canadenses, indianos, malaios, gurcas, maoris, canaques, somalis, senegaleses e franceses. A vanguarda é formada pelo corpo de exército do General Freyber, ao qual se unira a Coluna Leclerc, proveniente do Chade, através do Sáara. As colunas cerradas encontram-se ainda ao redor de Trípoli e de Bengási, não dispondo de meios para entrar em ação, tem que esperar várias semanas para atacar a linha de Mareth.

A Oeste os aliados tinham o 1° Exército britânico, possuindo até então apenas um corpo de duas divisões, o 19° Corpo francês, com suas três divisões, e o 2° Corpo dos EUA, que apesar de ter desembarcado oito divisões, os americanos só tem formadas a 1ª Blindada e a 1ª de Infantaria.

As forças do Eixo que agora ocupavam o arco de posições elevadas que cobriam Túnis e Bizerta foram reunidas num comando único às ordens do general von Arnim. O fim do Afrikakorps, como unidade combatente separada, foi simbolizado por sua incorporação às outras forças que se encontravam na Tunísia, e pela partida de Rommel da África. A longa luta pelo domínio do deserto ocidental, durante a qual Rommel mostrara suas notáveis qualidades de comando, era coisa do passado, e suas forças fundiram-se com as de von Arnim para defender o baluarte montanhoso que era seu último ponto de apoio na África.

Cercado na Tunísia pelo avanço convergente das tropas norte-americanas de Eisenhower e britânicas de Montgomery, o Afrikakorp, como todas as forças alemães, é obrigado a capitular. Com a proibição de Hitler de realizar uma retirada de suas tropas da África do Norte, o Eixo sofre um desastre comparável a destruição do 6° Exército diante de Stalingrado. Em toda a campanha da Tunísia, segundo o secretário Stimson, os aliados capturaram 266.600 homens, mataram 30.000 e feriram gravemente 26.400. Suas perdas não ultrapassaram a 70.000 homens. Durante os três anos de guerra na África, que agora terminara vitoriosamente, as perdas do Eixo, segundo Churchill, foram de 950.000 mortos e capturados além da destruição de 8.000 aviões, 6.200 canhões e 2.550 tanques.

O que o DAK tinha conseguido?
Primeiro, uma reputação inigualável. Levada a efeito extraordinário pelo comando de Rommel (cujo nome e prestígio, são afinal de contas, sinônimos do Afrikakorps), esta formação única. em tempo relativamente curto, adquiriu a imagem temível que a ajudou a vencer batalhas contra forças muito mais poderosas. Ela conquistou o respeito dos seus adversários com uma atitude, habilidade e bravura que superaram tudo quanto se viu em qualquer campo de batalha da Segunda Guerra Mundial. Não houve nenhuma onda de atrocidades premeditadas no deserto, e Rommel e o AK foram iguais aos seus adversários no trabalho de não permitir o seu aparecimento.

Em técnica e equipamento, o exército alemão na África manteve-se sempre em vantagem, em muitos aspectos, até o fim, e o fez através de improvisações as mais espantosas. Por esta razão, ele forçou as forças anglo-americanas a adaptar-se àquilo que seria comum até o fim da guerra. O 8º Exército chegou mesmo a adotar uma das canções favoritas do AK, "Lili Marlene", e a cantava em competição. Nestas condições, o balanço da guerra no deserto é altamente favorável ao AK. As dramáticas vitórias obtidas por aquela corporação são obras-primas, comparadas a tudo aquilo que as forças armadas germânicas fizeram de 1939 a meados de 1942. Depois disto, porém, as realizações do AK no Deserto Ocidental não aproveitaram às ambições nazistas, porque, pelas implicações políticas e de propaganda, elas acabaram por desviar a grande estratégia do Eixo do rumo estabelecido. Segundo Hitler, muito mais útil teria sido não ser forçado a ajudar o seu vacilante aliado.

Por esse motivo, o AK era visto apenas como um sustentáculo político de uma organização que mal e mal se sustinha nas pernas. A menos que a Alemanha estivesse preparada para transformar a África do Norte em importante teatro de guerra, tomando a costa desde Casablanca até Port Said, ao mesmo tempo que subjugava Malta, nenhuma força terrestre de tamanho considerável poderia operar na outra extremidade, porque lhe faltariam recursos para tal. Que Hitler poderia ter conseguido conquista de tal envergadura, em 1941 (em lugar de invadir a Rússia), não pode haver dúvida. particularmente quando se leva em conta a escala do desempenho de último minuto na Tunísia. Se ele poderia tê-la mantido, é outra coisa.

 

Mas Hitler, como Napoleão, sempre se assustava com a visão e o ruído do mar, e o Mediterrâneo o intrigava, assim como o Canal da Mancha. E, assim, o AK o arrastou relutante cada vez mais para o interior do continente africano e, pela própria expressão do êxito consignado, assinou a própria sentença de morte, tornando-se também fator importante na formação da estratégia do Eixo e britânica. A conjetura muitas vezes não passa de inútil passatempo, mas façamos isto apenas por instantes. Vamos supor que o AK tivesse no comando não um homem como Rommel, avesso ao convencional e agressivo por vocação, e se mantivesse na defensiva desde o começo, como queria Halder e como era praticado por Wavell na Cirenaica. Com os acontecimentos calamitosos na Grécia, as comoções no Oriente Médio e, depois, com a invasão alemã da Rússia, teriam os britânicos lançado seus esforços para oeste, para Tripoli, ou, como é mais provável, procurado meios de ajudar diretamente a Rússia, pêlos Balcãs, que Churchill chamou o "ventre mole da Europa"?

A julgar pelo entusiasmo com que a Grã-Bretanha acorreu a Grécia e pela necessidade vital de garantir os campos petrolíferos do Oriente Médio, podemos ignorar um poderoso movimento para o oeste antes de 1943. Em seguida, suponhamos que, mais para fins de 1941, Rommel tivesse tomado a ofensiva e fracassado, sem provocar muito júbilo da parte dos britânicos. Não teriam os britânicos adotado um ponto de vista mais otimista sobre o Oriente Médio e conservado sua reserva central para uso alhures? Não é possível que o AK tenha funcionado como um imã totalmente desproporcional ao seu tamanho, e atraído recursos extravagantes da Grã-Bretanha para uma campanha que se transformou numa batalha de prestígios e de inteligências? Lembremo-nos de alguns outros grupos que, no passado, por recusarem o convencional repetidamente venceram exércitos mais poderosos que eles.

Pensemos em Davi, nos gregos e espartanos, nos arqueiros ingleses na França, nas pequeninas carroças móveis de campanha dos hussitas de João Zizka, em vários exércitos revolucionários em inferioridade numérica, desde o de Washington até o de Garibaldi, até, na atualidade, o dos israelenses no Sinai. Finalmente, seja lembrado como desaparecem esses catalisadores uma vez diminuída sua força e tornados convencionais. Mas, em última análise, é a qualidade dos homens e sobretudo a do homem que está na cúpula, a mais importante. Neste aspecto, o AK foi feliz em ter Rommel como líder, e na maneira como ele neutralizou seus adversários por quase dois anos. A medida da realização do AK é que, mesmo quando enfrentando guerreiros resolutos e valentes como eles próprios, seus homens lutaram brava e limpamente até o amargo fim.

   
 
 
deo em homenagem ao Afrikakorps
Imagens da chagada a Trípoli.
 
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